
Eu sabia o que o médico ia falar, o que minha mãe ia falar e no que aquela reunião ia dar. Tudo na minha vida é muito previsível e a incoerência disso é que eu não sou previsível. Não gosto quando o pôr do sol se molda, no final do dia, com as mesmas cores do anterior. Não gosto quando as noites acabam sendo o que eu tinha previsto e quando as pessoas falam o que eu suspeitava. Não gosto da semana inteira de chuva, dos jantares monótonos, das pessoas ambíguas . Não gosto do chá com o mesmo gosto e dos pedaços de mamão igualmente cortados no café da manhã.
E quando tudo é previsível ao extremo fico sem saber o porquê do nada e das palavras e dos discos riscados.
Essa casa, essas paredes, essas tardes. Preciso partir e nunca tive tanta certeza de algo como tenho agora. Parece que aqui algo me prende ao chão e eu mergulho em um rio tão sujo e dramático e me afogo e não sei mais de mim, não sei mais de mim...
Preciso ficar longe das pessoas conhecidas, perto de ar puro, junto com o mar.