O que eu podia fazer se minha vida tinha começado aos quatorze anos? Os fatos antes disso são um borrão, um borrão que eu não faço questão de compartilhar com ninguém. Mas tive uma infância normal, mimada. Herdei as melhores coisas da minha família mas com certeza as piores da minha mãe. Insegurança, medo, indecisão e excesso de sensibilidade. Lutei contra isso grande parte da minha vida e um dia, sem motivo, resolvi aceitar. Aos quatorze, enfim, revelei-me a ovelha negra da família.Talvez antes disso já tinha traços do que viria a ser. As caretas em fotos são rastros. Sempre fui um problema muito maior pra mim do que pra qualquer outra pessoa. Dou um dedo por uma aventura, o que me contradiz e me coloca numa corda bamba já que eu sou infinitamente medroza. Não sei por que me descrevo agora. Não tenho mais necessidade de me explicar assim, mas o costume não se desfaz. Sempre me ditei regras e as cumpri. E sempre tive medo de cumprir pra sempre as minhas regras.
Princípios, vinho e livros. Não sei mais me desfazer de mim sem sentir essa perda que na verdade seria um fardo a menos, mas que sempre deixa a sensação terrível de que alguma coisa foi arrancada de dentro de mim com força.
Depois da minha arrogância e orgulho as lágrimas tomam conta do dia, mais pra estragar minha auto-estima do que pra colocar possíveis sentimentos pra fora. Às vezes tenho a sensação de que estou caindo pra dentro de mim, nesse poço sem fundo, escuro e sujo. Às vezes tenho a sensação de que morro dentro de mim e demoro tanto, tanto pra REnascer que cada vez que morro penso ser a última.
O que faço de mim se não quero os fatos que me pertecem? E o que faço dos fatos que me pertencem e que eu não quero?
Eles me estragam e me colocam nas classificações medíocres. Tenho medo de um dia morrer e não renascer mais e ver tudo de mim virar cinza, e ver a cinza de mim sumir