sexta-feira, 1 de janeiro de 2010

eu deveria usar este espaço para fazer meu balanço de fim de ano, não é isso que todos fazem? revisar o que deu certo e o que não deu, fazer planos para o próximo ano, metas que provavelmente não serão cumpridas e coisas do gênero.
não que eu não tenha aspirações, sonhos, e não elabore estratégias para realizá-los, mas se tem algo que me enoja e causa preguiça nas preparações natalinas é o caráter artificial das reflexões. "para o ano que vem, quero finalmente comprar aquele carro, fazer aquela viagem, fazer um curso de inglês...". "em 2010 serei uma amiga mais atenciosa, uma mãe tolerante, uma esposa dedicada...".
o início do ano é uma convenção, uma data escolhida arbitrariamente para simbolizar outra época. o fim do ano não nos torna amorosos, nem nos dota de capacidade de avaliação mais apurada. no dia 1° de janeiro não estamos dispostos a levar uma vida nova. somos os mesmos, carregamos nossas dores crônicas, do corpo e da mente. temos ainda as nossas resistências, tão entranhadas que fingimos que vamos mudá-las. parar de fumar, continuar aquela terapia, tentar mais uma vez fazer a faculdade ou o casamento dar certo... que recomeço é esse?
parece que o natal, os cartões melosos, os presentes e os abraços nos ajudam a mascarar nossas verdades. as promessas de fim de ano soam tão falsas aos meus ouvidos que mal resisto à tentação de fazer um comentário sarcástico quando aquele parente diz pela milésima vez: "ano que vem eu vou mudar!"
as metas, os gráficos de produtividade no trabalho, as conclusões acerca das relações familiares, tudo isso trabalhando a favor do recalcamento, fazendo com que fiquem cada vez mais submersos em nossos pensamentos, as questões que realmente importam.
fala-se que vai cuidar mais dos filhos como se diz que é preciso trocar as cortinas da sala, impressionante! na lista de balanço do ano entram, lado a lado, a frustração na carreira, a reforma do apartamento, e o melhor desempenho como pai. tudo se torna comparável, análogo: peru da ceia, presente da mamãe, amizade com a amiga, sem brigas com os inimigos. afinal, é festa! vamos fazer as orações e abrir logo os embrulhos! prometa ser mais atencioso com a mulher, ou mais dedicada aos estudos... depois abrace o vizinho e coma sua torta como se nada tivesse acontecido.
também gosto das guloseimas que compõem a mesa das festas de fim de ano. ganhar presentes é mesmo prazeroso, mas pensar que toda a parafernália natalina - árvore, sinos, tios vestidos com roupa vermelha e barba branca - trazem bons sentimentos e provocam a união da família é uma tolice absurda.
as verdadeiras mudanças são decorrentes de nossas elaborações internas, de muitas perguntas sobre o que nos causa sofrimento, e principalmente, até que ponto queremos que isso seja diferente. é preciso trabalho árduo, coragem, e algum tempo para tornar real aquela mudança tão sonhada. e esse tempo não é equivalente ao nosso calendário. é o tempo do próprio sujeito. daquele que padece, e não da chegada do papai noel.
qual será a hora certa para o filho que sempre se sentiu rejeitado abrir mão do rancor e aproximar-se dos pais? quanto tempo leva? seis meses? trinta anos? o tempo de um Pai Nosso antes da ceia? quem é que sabe?
o importante é lembrar que tudo o que é subjetivo não se submete às regulações externas impostas pela sociedade do consumo. caso contrário, escondemos cada vez mais o que sentimos, e agimos de forma estereotipada. quem de nós não sabe de cor tudo o que acontecerá nas noites de natal e ano novo em família nos próximos anos? pois são as mesmas felicitações, as mesmas orações, as pessoas que bebem mais e as que bebem menos. os mesmos tipos de presente de cada um - aquele que dá lembrancinhas a todos, o que dá presentes caros, só para mostrar como é generoso, e aquele que nunca dá nada a ninguém e sempre procura se desculpar.
não quero desejar um feliz natal atrasado ou um próspero ano novo aos meus amigos queridos. prefiro que eles tenham a possibilidade de escolher o que sentir neste fim de ano.