
Você me chamou por telefone. Não te vejo há um ano... seis anos juntos e agora sem te ver... pela tua voz no telefone sei que você está controlando uma emoção, querendo bancar o homem seguro de si... e fico desesperada porque mesmo assim você consegue fingir solidez e eu... e eu... ao ouvir tua voz, o mundo se acalma... tudo estava rodando e se acalma, minha casa estava cheia de perigos, as facas, os garfos me ameaçavam das gavetas, as agulhas, os remédios envenenados, os mosquitos e bichos voando nas janelas querendo me atacar e tua voz vem calma no telefone e eu sei que é mentira que você vive em pânico, mas eu fico toda emocionada, fico toda menina, toda protegida com o falso tom de bondade sórdida que tua pose de homem prático assume...e tua voz vem do mundo dos altos, dos fortes, e eu, mesmo sabendo dos perigos que esta paz me oferece , me arrumei toda para vir aqui ver você (...)
Será que eu nunca mais vou te esquecer? Será que eu nunca mais vou olhar no espelho sem ver você refletido? Será que nunca mais vai chover sem eu ver a chuva molhando o teu rosto?
Nós somos sobreviventes de um desastre... mas eu quero te dizer que... aconteça o que acontecer... quero que você saiba... quero você diga para as mulheres que você conhecer... que lá no fundo... onde eu fui... é só escuro... e lá, na solidão completa, de repente surgem uns peixes luminosos... embriões flutuando à sua volta... os filhos de tua coragem... e você começa a subir de volta... sentindo uma alegria nova... e não é a tal da “purificação pelo sofrimento” não, é ver... ver que há qualquer coisa eterna na tua loucura... que tua loucura é eterna... real... como o vento... o fogo... as árvores que se moviam na minha infância... hoje minha loucura é verdadeira como as coisas... e aí eu comecei a me sentir uma habitante do planeta, eu sou a verdade... e quero que saiba também que quando vejo você caído no chão, fraco feito um trapo... você passa a ser meu herói de novo... engraçado... quanto mais fraco você fica, mais gosto de você... nós dois... destruídos... sem pose... desamparados... aí eu nos quero... aí eu nos amo... eu acho que a gente tem hoje uma dignidade que nunca teve... era isto que eu queria te dizer...te dar... como um presente de amor (...)
Ela: você me amava ou ama?
Ele: Amava... amo... sei lá... só sei que quando me afasto de você a vida fica mais real... as ruas, normais... o mundo fica mais democrático... e quando me aproximo, começa o sonho, a gelatina, tudo desmanchando, os olhos nos olhos eu vou virando um ratinho e guincho, guincho e buraquinho... pluft, entro no buraquinho e começo a morar num pesadelo, as 27 mulheres me salvaram de você, a cada uma eu ia ficando mais real... assim eu te salvei de mim (...)
Mas porque será que ele está absolutamente calmo? Por que eu me sinto abraçada sem que ele me toque? Eu me sinto dormindo em seu colo apesar de estar longe dele. E, no entanto, eu vou ter de ir embora... por que eu vou ter de ir embora? A porta está lá pronta para ser aberta, e meus pés vão descer a rua, e eu vou ver cada fragmento do chão, cada ponta de cigarro, cada palito, casa miséria do chão da cidade, olhando de cabeça baixa... eu vou ter de ir... vou ter de ir !!!
Trechos retirados do livro: Eu sei que vou te amar de Arnaldo Jabor