terça-feira, 10 de novembro de 2009

O barquinho vai, a tardinha cai (8)


Eu que sempre tive tudo o que eu quis, do jeito que queria... vai ser difícil quando as coisas se complicarem. Não sei se vou aceitar um 'não' ou se vou conseguir ver desmoronar algum pequeno sonho constituído de expectativas. Há sempre um lado bom, e o lado bom disso é a persistência, o lado ruim é o orgulho, a falta de algo que talvez -muito talvez- possa ser chamado de humildade.

Eu que muitas vezes tive meus desejos mais impossíveis na ponta da faca e consegui realizá-los. Eu que sempre na última hora dei um jeito de salvar meu pescoço. Eu que sempre confundi orgulho com persistência e saí ilesa. Eu que ceguei-me diante dos fatos, de uma verdade descabida que quase não podia existir. Eu que desejo a liberdade sem saber que o sinônimo dela não é ganhar tudo sempre, bem pelo contrário, as perdas são constantes. Eu que aprendi tão fácil a deletar pessoas de mim não soube deletar sentimentos. Eu que aprendi a amar a solidão não sei viver sem pessoas. Eu que quis as coisas mais fúteis na hora errada as possuí no momento certo. Eu que sempre tive sorte quando não esperava tenho medo que ela me abandone nos momentos de apuro.

Eu que tenho mais medo de mim do que de qualquer outra pessoa.
Eu que embora tenha aprendido a não confiar, continuo confiando.
Eu que de uma palavra podia escrever um livro, hoje não consigo escrever nem uma frase.

E os pássaros me acordam com uma bicada leve na ponta do nariz. Dizem que faz sol, mas logo em seguida começa a chover.
E o amor senta no puff do lado da cama e me faz ler mais um capítulo do livro. Quando acabo, toca harpa para mim e embala o meu sono. Duas da manhã, ele sempre diz, duas estradas.